quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O Silêncio dos Ecologistas

O silêncio dos ecologistas da Terra

Leio num semanário local, uma notícia dada de modo efusivo e louvador, que o comitê da bacia do rio ibicuí tem novos gestores, um presidente de Alegrete que representa a associação dos arrozeiros local, como vice o representante da associação dos arrozeiros de Uruguaiana, ora isto deveria servir de profunda preocupação para a sociedade, é como dizia a minha vó - a raposa tomando conta do galinheiro - , pelo que eu saiba foi a lavoura de arroz que mais contribuiu negativamente para a degradação dos rios de nossa região:
- desmatamento das matas ciliares, para plantar gananciosamente até as barrancas, causando o assoreamento,
- milhares de toneladas de agrotóxicos que escorrem para o leito, isto quando o próprio rio não é pulverizado;
-sucção desenfreada das águas não importando se é época de estiagem ou não.
- nem vou falar da piracema.
A pergunta que não quer calar:
Eles, os arrozeiros, vão cuida agora dos rios que eles mesmo destruíram?
Ter o controle do rio é interessante economicamente?
Lhes facilita mais o acesso para seguir explorando o recurso, com ônus só para sociedade?
Aqui em Alegrete até os neoliberais e canibais viraram ecologistas.
Isto acessa recursos públicos para os privados seguirem usufruindo.
Então está explicado.

José Ernesto Grisa

Mortes e violência, esse é o lema do Bar do Viola na periferia de São Paulo

Bar macabro é famoso na zona sul de São Paulo por ser um reduto de brigas.

Brigas, mortes, safanões e pancadaria. Essa é a rotina do Bar do Viola, no Jardim Ângela. Parece coisa de filme, mas não é. O Bar do Viola, situado numa das regiões mais pobres de São Paulo, tem uma fama funesta de ser um reduto de violência. Os vizinhos já se acostumaram com as brigas quase diárias e a polícia já não se importa. O botequim virou uma terra sem lei.

O pequeno estabelecimento comercial além de abrigar criminosos e trombadinhas de diversas estirpes, ainda atrai muitos curiosos e freqüentadores fiéis, animados com a violência rotineira.

Morte rotineira no Bar do Viola

Morte rotineira no Bar do Viola

O balconista Maikol Souza, freqüentador do bar, conta que sempre aparece no bar para tomar uma cerveja depois do expediente e assistir algumas brigas “Eu sempre venho com o pessoal da firma aqui pra tomar umas cangibrina e assistir umas porradas. Mas a gente gosta mesmo é quando dá morte.” conta.

Seu Viola, dono do bar, conta que já cansou de baixar as portas e somente se incomoda em limpar as poças de sangue, tarefa quase diária “Todo dia tem briga, bate-boca e o pessoal sai no braço mesmo. Eu não me incomodo mais, pelo contrário, isso aumentou muito a clientela. É meu ganha pão, não posso ficar sem abrir o bar por causa de um ou outro que morre. Senão ficava fechado todo dia.”

O dono do estabelecimento antes cansado com a violência, diz que resolveu investir nela. “Antes eu permitia que entrassem com revólver, mas agora eu proibi qualquer tipo de armamento. Aqui no bar quem quiser brigar tem que ser na mão ou alugar alguma arma daqui.”

O bar já conta com diversos tipos de armas para aluguel como: facas, punhais, facões, porretes, tacos de baseball, estiletes, nunchakus e mais algumas outras armas brancas.
Seu Viola avisa que proibiu arma de fogo porque as brigas acabavam muito rápido com elas. “O pessoal aqui quer ver sangue, mas com um pouco de pancadaria antes. Com revólver o pessoal já atirava e acabava. Isso afastava a freguesia.”

Quando a noite acaba sem mortes, as vendas caem e os clientes reclamam. O garçom Reginal lamenta noites assim “Quando não tem morte o pessoal se recusa a pagar os 10%. Eles acham que a culpa é nossa. Por isso eu sempre estimulo as brigas, conto uma fofoca aqui e outra ali para atiçar os ânimos e não ficar sem a minha grana” ri.

A sinuca é o esporte preferido dos freqüentadores do bar e é geralmente durante os jogos, que a maioria das discussões tem início. “O pessoal joga valendo torresmo e rollmops. Depois de umas e outras pingas já começa a discussão e o pessoal bota lenha na fogueira, porque a negada quer ver é briga.” Conta um cliente que não quis se identificar.

Outro cliente que não quis se identificar, disse que apostou a vida num jogo de sinuca. “Eu tinha uma rixa com um sujeito aí e decidimos resolver na sinuca. Quem perdesse, pagava com a vida. Ia ser decisão na melhor de três, e na ‘nega’ o fulano perdeu e disse que era melhor de cinco. Ai eu perdi e o quebra pau começou, tomei 12 facadas, mas graças a Deus sobrevivi.”

Os vizinhos do bar reclamam do barulho, da violência e da inércia da Polícia. A faxineira Jussara diz que a PM sempre aparece no final da noite, quando a confusão já acabou. “Eles sempre aparecem aqui depois do ocorrido, nunca no meio ou antes. Inclusive eu fiquei sabendo que os policiais fazem um bolão com prêmio pra quem acerta o número de mortes da noite.”.

Apesar das noites de sangue, Seu Viola diz que não pretende fechar o bar. “A violência é que atrai o meu público. Sem ela eu não seria nada.” Questionado sobre o motivo dos clientes sempre retornarem ao bar apesar dos pesares, Seu Viola ironiza “Eles voltam porque eu faço o melhor rollmops da região.”

Procurada por nossa equipe, a polícia preferiu não emitir nenhuma opinião oficial, apenas que irão averiguar o alvará do estabelecimento.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

É possível um capitalismo Sustentável?


David Barkin (profº da Universidade Autônoma Metropolitana do México – Unidade de Xochimilco) faz uma explanação em um texto, sobre as experiências no México, que vão na contramão da hegemonia da economia de mercado e do próprio sistema capitalista.

Destacam-se algumas experiências bem sucedidas de sustentabilidade em trabalhos desenvolvidos por comunidades campesinas e indígenas, baseadas em saberes tradicionais, uma relação holística com a natureza, práticas agroecológicas, incorporação de todas as dimensões do território – como espaço físico, cultural, social e ambiental. Podemos dizer que, em toda a América Latina, vamos encontrar experiências semelhantes, ou seja, construção de espaços de sustentabilidade dentro do mundo atual, uma estratégia alternativa de produção sócio-político-ecológica.

Alguns questionamentos são pertinentes sobre os princípios dessa sustentabilidade expostos perante o sistema capitalista, por exemplo, até que ponto podemos afirmar que esta experiência tem uma verdadeira autonomia frente aos poderes do mercado e os estados neoliberais? Isso é possível? Pode-se obter uma autonomia relativa, que não o torna independente da globalização, que é a própria lógica do desenvolvimento do capitalismo – baseada na apropriação privada dos meios de produção e na concorrência entre capitais – fatores que alimentam a concentração e a centralização do capital.

Portanto, o processo de globalização que observamos hoje já estava inscrito no código genético do capitalismo desde de suas origens. Outro princípio da sustentabilidade – a democracia participativa – tem seus limites na retórica, pois o que se evidência é a assimetria entre a base e as lideranças.

Com a globalização da economia, o capitalismo se expandiu em todo o globo terrestre, inclusive nos "mercados" mais íngrimes "concordemos ou não, gostemos ou não, a globalização é um fato cotidiano que permeia a nossa realidade, desde o creme dental que usamos, a roupa que vestimos, o tênis que calçamos, os alimentos enlatados que comemos, o programa de tv a que assistimos, o jornal que lemos, o computador que utilizamos, o banco em que recebemos o salário ou realizamos o negócio, a internet em que navegamos, entre outros milhares de aspectos do nosso dia a dia. Portanto, globalização é um fenômeno típico do capitalismo contemporâneo" (COSTA, Edmilson – A globalização e o capitalismo contemporâneo- Expressão Popular).

O sistema produtor-destruidor de mercadorias é o modelo dominante que expropria numa velocidade atômica, extraordinariamente mais a natureza do que os nichos de resistência e modelos alternativos o fazem, o que não significa deixar de reconhecer a importância dos espaços alternativos, mas estes, por si só, reproduzindo-se de formas isoladas, não sendo um processo de acúmulo de forças, de resistência e de ação organizada e centralizada que coloquem na ordem do dia a necessidade de transformação social, não vão conseguir superar o modelo hegemônico do capital.
A lógica de acumulação e a velocidade de desapropriação da natureza nos fazem pensar, de forma racional, que o destino da humanidade tem uma profunda possibilidade de perecer.

As questões sociológicas colocadas são as seguintes:

  1. O capitalismo será capaz de fazer um novo contrato societário e de se submeter a uma metamorfose que possa mudar a sua lógica de acumulação, exploração e lucro? Se conseguir realizar, isto não será mais capitalismo;
  2. Existe hoje a possibilidade da união dos excluídos, dos explorados, dos oprimidos do mundo, de se desalienarem e adquirirem uma consciência da necessidade de transformar a sociedade em tempo hábil?
  3. A terceira hipótese é a de que, se o sistema conseguir ir se reproduzindo e ir ganhando fôlego ao contornar as suas crises, quanto tempo teremos, mantendo-se o ritmo de acumulação e expropriação sistemática da natureza?

Os reformistas sociais liberais ou os ambientalistas de mercado acreditam serem capazes de recauchutar o capitalismo e se propõem a administrá-lo, pelo contrário, minha conclusão é de que – NÃO É POSSÍVEL UM CAPITALISMO SUSTENTÁVEL – como dizia Marx em suas teses sobre Feuerbach : "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo".


José Ernesto Alves Grisa

Mestre em Sociologia UFRGS/IFF

Profº de Sociologia e Extensão Rural


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Tribunal de Justiça do Acre paga R$ 5 mil a assessora fantasma


Stela Siqueira não se apresenta, não cumpre horário, não trabalha, mas recebe todo mês mais de R$ 5 mil do Tribunal de Justiça do Acre. Ela mandou imprimir recentemente cartões para se apresentar nos salões como assessora especial do gabinete do presidente Pedro Ranzi.

Não é verdade que seja assessora especial. É apenas e tão somente protagonista de uma mamata no ambiente público do Judiciário do Acre.

No dia 3 de março foi nomeada para exercer o cargo de provimento em comissão de Chefe da Seção de Reestruturação e Seleção e de Administração de Cargos e Salários, código PJ-DAS-101.4, sendo lotada na mesma data no gabinete do presidente do Tribunal de Justiça.

Antes disso, a partir de março de 2005, durante a presidência do desembargador Samoel Evangelista, ocupou, sem trabalhar, o cargo de provimento em comissão de Chefe do Setor de Contabilidade, código PJ-DAS-101.2, da Seção de Finanças do Tribunal de Justiça.

No dia 2 de abril de 2007, após a desembargadora Izaura Maia assumir a presidência do Tribunal de Justiça, Stela Siqueira foi exonerada por sugestão da presidente do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário, Rosane Ferraz.

Como Stela é irmã do secretário estadual de Planejamento Gilberto Siqueira, amigo de Izaura Maia, naquela ocasião a desembargadora o procurou para comunicar que a situação era insustentável e que a mesma seria exonerada.

- Ela não trabalhava, mandava alguém buscar o contracheque e o dinheiro caía na conta dela. Continua agindo da mesma maneira e nós vamos tomar as providências necessárias para cessar essa ilegalidade, que significa afronta à dignidade dos servidores que trabalham com abnegação, mas não contam com apadrinhamentos para ganhar dinheiro sem trabalhar. É vergonhoso que ela tenha voltado a ocupar um cargo de confiança no Judiciário nessas condições - comenta Rosane Ferraz.

O blog procurou três setores do Tribunal de Justiça na tentativa de localizar Stela Siqueira, mas as pessoas que atenderam desconheciam o nome e o local de trabalho da “assessora especial” do desembargador Pedro Ranzi.

Detalhe do cartão impresso na gráfica do Judiciário: consta o endereço do Tribunal de Justiça, mas sem telefone do local de trabalho. Para qualquer contato, apenas dois e-mails e um telefone celular particular.

O mesmo celular mencionado pelo colunista social Moisés Alencastro na edição do Página 20, de 4 de setembro de 2007 - mas não reparem os erros da nota “Flores” a seguir:

- Gente é simplesmente chiqueressímos os arranjos florais confeccionada pela design floral Stela Siqueira. Os arranjos são verdadeiras obras de arte. Essa é a razão que a empresária está sendo super requisitada por todos aqueles que admira o belo e o requinte. A dica é seguinte quando for receber em casa, ambiente de trabalho alto estilo ou presentear alguém muito querido é só ligar para 9984-4869.

Apartamento bate recorde de metro quadrado mais caro


Um apartamento em Hong Kong bateu o recorde de metro quadrado mais caro do mundo. De acordo com a agência Reuters, o imóvel batizado de "Conduit Road 39" foi vendido pelo preço de R$ 166,4 mil por metro quadrado.

O imóvel superou o antigo recorde de um apartamento em Londres.

"Conduit Road 39" é um duplex localizado no luxuoso bairro de Victoria Harbour, em Hong Kong. O imóvel tem 572 metros quadrados.


O apartamento duplex foi vendido por um preço de R$ 166,4 mil o metro quadrado

terça-feira, 6 de outubro de 2009

PT quer candidato em SP; líder "está com Lula" e espera Ciro

O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) é o favorito de Lula para o governo de São Paulo. Em reunião, o PT do Estado indicou interesse em candidatura própria, defendido também pela ex-prefeita da capital, Marta Suplicy (SP). O líder do partido na Câmara, Cândido Vaccarezza, nega que tenham decidido algo e afirma: "Estou com Lula, a minha posição é a mesma que a do presidente", diz .

- De preferência que esse nome seja do PT, não obrigatoriamente. Acho ainda que o melhor nome ao governo é o prefeito Emídio de Souza, de Osasco - contemporiza.


Na reunião, Vaccarezza e o deputado federal José Genoino defenderam que o partido espere o deputado cearense decidir se concorre ou não à presidência. O que, segundo o líder, não impede que o PT construa sua candidatura para "oferecer aos aliados como uma opção à candidatura do governo do Estado".

- Não há nenhuma rejeição ao nome de Ciro - garante Vaccarezza.

O grupo favorável à candidatura própria defendeu que, caso Ciro se lance à presidência, ele pode ajudar a ministra Dilma Rousseff, "único candidato definido até agora", diz Vaccarezza que acha o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), "um nome melhor do que bom" para vice de sua presidenciável.

Leia abaixo a entrevista:

Terra Magazine - Deputado, o senhor acredita ser preciso uma candidatura própria do PT em São Paulo?
Cândido Vaccarezza -
Isso é a opinião de alguns. Ontem não teve nenhuma decisão diferente do que já havia sido decidido em fevereiro pelo diretório regional. Não houve nenhuma votação. Foi um debate político. A minha percepção é que o PT quer definir um ou alguns candidatos para oferecer para os partidos aliados como opção à candidatura do governo do Estado. O PSB também ainda não decidiu, apesar de o Ciro dizer que quer ser candidato a presidente, seu partido o quer como governador. O PDT tem colocado o nome do Hélio. Nós vamos sentar e discutir qual é o melhor nome que unifique a frente, seja ele do PSB, PT, PDT e acho que se o PMDB vier para a frente, até do PMDB.

O senhor, então, é a favor de aguardar essa frente para decidirem um candidato em conjunto, sem bater o martelo por um nome petista?
Eu estou com o Lula. A minha posição é a mesma que a do presidente. De preferência que esse nome seja do PT, não obrigatoriamente. Acho ainda que o melhor nome ao governo é o prefeito Emídio de Souza, de Osasco.

É majoritária essa posição de que o PT deve ter um candidato da legenda?
Majoritária e minoritária veremos na hora do voto. A minha dissertação é de que o PT quer, por maioria, um candidato da legenda. Mas não é majoritária a ideia de que o PT deve obrigatoriamente ter um candidato próprio. Eu quero que esse candidato seja do PT, mas não obrigatoriamente isso precisa acontecer, isso não será motivo para rompermos com a frente. Tanto é que o PT abriu a fase de inscrição e não a fechou, quem quiser ser candidato do PT pode se inscrever a partir de novembro e ainda não definiu o prazo de encerramento dessa inscrição.

O que move esse anseio do PT em ter um nome próprio?
Esse anseio foi decidido em fevereiro, antes de Ciro ser candidato. Primeiro, eu acho que não há nenhuma rejeição ao nome de Ciro, mesmo porque as pessoas que falaram em candidatura própria da legenda defenderam que Ciro deveria ser vice-presidente. Mas com Ciro, não dá.

O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) transferiu o título a pedido do presidente Lula.
Isso mesmo.

Essa vontade do PT paulista de ter um candidato da legenda não gera uma indisposição com o presidente Lula, que apoia o Ciro?
Não, nenhuma. Nenhuma. Veja, eu tenho afinidade completa com a visão do presidente Lula. Se fecharmos que vai ser o Ciro, será o Ciro. Não estamos na fase de bater o martelo sobre quem será o candidato. Candidato definido até agora só tem a Dilma. Eu acho que, além de Wagner, Ana Júlia e Tarso Genro, pra valer mesmo só temos a Dilma.

O que o senhor acha, então do nome de Temer para a vice-presidência?
Um bom nome. Melhor do que bom. Primeiro porque a relação tem que ser partidária. O PT indicou o presidente, a Dilma, então não tem que se meter para decidir quem será o vice. Podemos opinar, mas se o PMDB vier para o acordo político conosco e formar a frente com o partido inteiro para apoiar a Dilma, porque não aceitar o Temer. Ele é presidente da Câmara, uma figura ilibada, sem problemas, representa o PMDB há muito tempo.

Terra Magazine

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A origem do latifúndio no Brasil

João Pedro Stedile

Freqüentemente afloram argumentos de que os atuais grandes proprietários de terras as adquiriram com o suor do seu trabalho. Outros, menos dissimulados, evocam simplesmente o direito “sagrado” e absoluto à propriedade da terra. Se comprou e pagou, se está registrada em cartório, é dele e pronto!
Mas qual é a origem mesmo da grande propriedade no Brasil? Terá sido fruto mesmo do trabalho acumulado de gerações?
Até a chegada dos europeus, em 1500, este território era habitado por aproximadamente 5 milhões de pessoas, aglutinadas em mais de 200 povos indígenas, com território, culturas, hábitos diferenciados; a propriedade do solo não era privada. Era apenas um bem da natureza utilizado coletivamente por todos os membros dos diferentes povos. Assim, os brasileiros que aqui viviam tratavam a terra como um bem comum, em que todos tinham o direito de explorá-la para sobreviver.
A chegada do europeu colonizador significou uma ruptura nesse sistema, já que um dos objetivos da colonização era se apoderar dos bens existentes, especialmente a terra e os recursos naturais, de minérios e florestas. Esse conflito, que se estabeleceu à força da pólvora e do controle ideológico da religião, impôs uma derrota aos povos que aqui viviam. Vencedor, Portugal passou então a gerir os bens da natureza de acordo com suas leis.
A primeira forma de distribuição de terra foram as Capitanias Hereditárias, concessão de uso em que a Coroa destinava grandes extensões do território a donatários, amigos e prestadores de serviço à Coroa. Os donatários e concessionários tinham o direito de repartir e distribuir parcelas desses territórios a outros que lhes interessasse ou para viabilizar o aumento da exploração.
Ao longo do período colonial e até o final do século 19 prevaleceu esse sistema em que a terra era um bem da Coroa portuguesa, com concessão de uso para aqueles que se dispusessem a explorá-la, que tivessem condições para isso (recursos para compra de escravos, por exemplo) e que tivessem serviços prestados à Coroa.
Em meados do século 19, o Brasil passou por grandes transformações sociais. Crescia a luta dos negros escravos, multiplicavam-se os quilombos. Intensificavam-se as pressões externas e internas contra o tráfico de negros oriundos da África. Na sociedade brasileira, setores liberais, de classe média, com vocação republicana, também se opunham e lutavam contra a escravidão.
Preocupada com essa pressão e percebendo a inevitabilidade da libertação dos escravos, a Coroa tratou de legislar sobre a aquisição da terra no Brasil, de forma a garantir que a posse e a propriedade da terra mantivessem o caráter mais restrito possível, ou seja, acessíveis apenas para uma minoria das elites da nobreza. E, sobretudo, para garantir que os escravos libertos não tivessem o direito de acesso à terra, tão abundante, e se mantivessem na condição de trabalhadores assalariados nas fazendas. Aceitavam terminar com a senzala, mas queriam manter a mão-de-obra cativa nas grandes fazendas de cana, de café.
Por outro lado, na Europa, nessa época, a tensão social agravava-se com uma crise generalizada no campo, pela escassez de terras e pela existência de multidões de camponeses sem-terra. Para os camponeses pobres da Europa, a migração para o continente americano é a possibilidade de realizar o sonho de ter um pedaço de terra.
Foi nesse contexto que D. Pedro II promulgou a Lei nº 601, de 18 de setembro de l850, conhecida como a primeira Lei de Terras do Brasil, pela qual definiu a forma como seria constituída a propriedade privada da terra em nosso País. Já que, até aquela data, o direito a propriedade era reservado à Coroa. Os usuários detinham apenas concessão de uso e não a propriedade legal.
A lei de 1850 determinava que somente poderia ser considerado proprietário quem legalizasse suas terras em cartórios oficiais, pagando certa quantia em dinheiro para a Coroa.
Assim, a principal conseqüência social da Lei de Terras de l850 é que manteve os pobres e negros na condição de sem-terra e, por outro lado, legalizou, agora como propriedade privada, as grandes extensões de terra, na forma de latifúndio. Todos os antigos concessionários da Coroa, com a vigência da Lei de Terras, corriam aos cartórios ou às casas paroquiais que mantinham registros, pagavam certa quantia pela terra e legalizavam suas posses. Assim, imensas áreas, antes de propriedade comunal-indígena, depois apropriadas pela Coroa, agora eram finalmente privatizadas nas mãos de grandes senhores, que se transformaram de amigos da Coroa em senhores das terras, em latifundiários.
Cabe ressaltar que, mesmo dentro de um regime de propriedade privada, capitalista, como o dos Estados Unidos, foram impostos limites e condições que normatizaram a distribuição das terras. O presidente Abrahm Lincoln implantou uma lei de colonização das terras públicas que se baseava no critério de que a terra deveria ser apenas de quem nela trabalhasse. E com base nesse critério, estabeleceu-se que cada família que quisesse trabalhar e viver na terra, teria o direito assegurado a 160 acres.
Com essa Lei, foram distribuídas, entre l862 e l880, cerca de 60 milhões de hectares de terras públicas federais e outros 120 milhões de hectares de terras públicas estaduais, beneficiando no total mais de 3 milhões de famílias de agricultores. Estes, tendo acesso à posse da terra, se transformaram em pequenos e médios agricultores, e logo consumidores de produtos industriais, como instrumentos de trabalho para agricultura, maquinaria e produtos de consumo familiar. Graças a esse processo de democratização da terra, foi possível desenvolver uma pujante agricultura, que aumentou imediatamente a produção e gerou um enorme mercado interno para a indústria nacional instalada no norte do país. Essas bases transformaram o país dividido e dilacerado pela guerra civil na maior potência econômica industrial no final do século.
Já no Brasil foi criada uma base legal que deu origem à propriedade privada da terra, justamente para fomentar e estimular apenas a grande propriedade fundiária, consolidando o latifúndio.
Portanto, a raiz de nosso subdesenvolvimento, de nossa pobreza, e de nossa desigualdade social, está no latifúndio.

As elites não precisam e não querem dividir o latifúndio.

A propriedade da terra nos países desenvolvidos

A expressão reforma agrária não foi uma bandeira de luta levantada pelos movimentos camponeses. Eles se atinham ao ideal de terra para trabalhar. A reforma agrária, como sinônimo de uma política de distribuição da propriedade da terra, por parte do Estado, surgiu no final do século passado na Europa, por parte das burguesias industriais. Após muitas décadas de desenvolvimento do capitalismo industrial, as elites industriais perceberam que havia limitações de mercado interno em seus países, porque a maioria da população vivia ainda no meio rural e na condição de camponeses sem-terra e nessa condição não tinham renda para adquirir os bens produzidos pela indústria. Assim, identificaram no monopólio da grande propriedade da terra um empecilho para o desenvolvimento do próprio capitalismo. E para esse problema agrário advogou-se uma solução: a reforma agrária.
Portanto, a reforma agrária surgiu como uma proposta de política do Estado. Assim, reforma agrária não se restringe a assentamentos rurais. Ela é, essencialmente, a democratização da propriedade rural.
Essas políticas de reforma agrária, ou de democratização da propriedade da terra, visando transformar camponeses sem-terra em produtores autônomos de mercadorias, com acesso ao mercado, com renda suficiente para adquirir produtos da indústria e, portanto, capazes de dinamizar o mercado interno, foram aplicadas em muitos países. Primeiro, se aplicaram nos países da Europa Ocidental, onde havia um desenvolvimento maior do capitalismo industrial e, portanto, necessitavam de mercado interno para seus produtos. Depois, logo após a I Guerra Mundial, foi aplicada em 18 países da Europa Central e Oriental. E após a II Guerra Mundial, foi aplicada no sul da Itália, e no Sudeste asiático, particularmente, no Japão, na Coréia e na província de Formosa.
Com essa mesma perspectiva, pode-se dizer que a lei de colonização de l862 nos Estados Unidos, embora não tenha o nome de reforma agrária,se constituiu num importante instrumento de democratização do acesso à propriedade da terra.
Todos esses exemplos mencionados até aqui se referem a processos de reforma agrária nos marcos e dentro de uma política para o capitalismo. Houve outros processos de reforma agrária, nos marcos de revoluções populares, anticolonialistas, ou da transição para o socialismo, que não são objetos de referência nesse caso.
Aqui, cabe a pergunta: se os processos de reforma agrária foram impulsionados para ampliação do mercado interno e na busca de um maior desenvolvimento, mesmo dentro do capitalismo, por que a reforma não foi feita no Brasil?
No Brasil, desde que aqui aportaram os portugueses, se aplicou um capitalismo colonial dependente. No período de l500 a 1900 vigorou um modelo econômico, que organizou a sociedade brasileira, durante 400 anos, unicamente para produção agrícola de exportação. A prioridade era produzir o que a Metrópole desejava, ou seja, aqueles produtos de origem tropical que não eram possíveis produzir no hemisfério norte, por causa do frio: cana, café, cacau, couro da pecuária extensiva, algodão. Infelizmente, para a difusão dessa monocultura exportadora, exigia-se grandes extensões de terra, ainda mais que o trabalho não era assalariado ou de parceiros (como no feudalismo europeu), mas sim de escravos. Desse modelo gerou-se apenas duas classes sociais: a oligarquia rural exportadora e os escravos. Ora, esse modelo de capitalismo dependente, sustentado pela mão-de-obra escrava, se fundou nas raízes da grande propriedade. Ou seja, o capitalismo nasceu no Brasil de braços dados com a grande propriedade latifundiária. Portanto, o capitalismo não se baseia em mercado interno, portanto não precisa criar produtores autônomos e mais consumidores.
Esse modelo agroexportador, que está na raiz de nossa sociedade, entrou em crise de l900 a 1930. As razões da crise foram a conjugação de diversos fatores, entre eles: a crise da I Guerra Mundial, que reduziu as exportações agrícolas, a queda no preço internacional do café e, sobretudo, pelo fato de que aquele modelo não conseguia mais produzir os bens necessários para as demandas da sociedade brasileira.

A Revolução de 30: novo modelo econômico

A crise desencadeada pela incapacidade de a agricultura exportadora sustentar o desenvolvimento do País resultou na chamada “Revolução de 30”, que implantou um novo modelo econômico: o da industrialização do País. De l930 até l980 todos os esforços da sociedade foram dirigidos à industrialização. Observa-se um processo acelerado de produção de mercadorias de origem industrial e de crescimento econômico. Mas esse novo modelo não rompeu com as raízes da formação econômica do País. Embora o poder político agora estivesse majoritariamente em mãos das elites industriais, persistiam os laços com as oligarquias rurais que, ao contrário do que aconteceu com os senhores feudais na Europa, perderam poder político, mas não perderam as terras.
Instituiu-se então uma parceria entre as oligarquias rurais e a elite industrial. A agricultura de exportação funcionava como captadora de dólares para financiar a implantação da indústria. Por outro lado, no sul do País, os pequenos agricultores originários do processo de colonização deveriam produzir para o mercado interno, com um rigoroso controle dos preços dos produtos agrícolas por parte do Estado, para garantir uma cesta básica a custos reduzidos e, por conseguinte, viabilizar os baixos salários pagos aos operários.
A pequena agricultura nunca conseguiu acumular e constituir um forte mercado interno consumidor, como aconteceu na Europa e Estados Unidos, porque aqui seu papel era financiar a subsistência do novo operariado.
E as pressões do crescente contigente de camponeses sem-terra que iam sendo excluídos pela concentração da propriedade da terra foram em direção às cidades, atraídos pela possibilidade de se transformar em operários. Essa mão-de-obra farta e barata foi se constituindo no exército industrial de reserva, de origem camponesa.
No período de l930 a l980, o Brasil inverteu sua matriz de localização populacional. Antes, 80% da população estava localizada no meio rural; com o modelo de industrialização, em algumas décadas 80% da população passou a morar ou se empilhar nas grandes metrópoles.
Ao contrário do processo de urbanização lento e gradual, distribuído em centenas de pequenas cidades, no Brasil o êxodo rural esteve direcionado para os grandes aglomerados humanos. Assim, a origem das grandes metrópoles brasileiras com todos os seus problemas, como a marginalidade social, carência de moradia, de emprego, tem sua causa na manutenção do latifúndio.
Nesse novo modelo de organização da produção na sociedade brasileira, os lucros auferidos pela elite urbana do setor comercial, exportador, industrial e financeiro são aplicados, em parte, na compra de grandes extensões de terra. Grandes grupos econômicos, industriais e comerciais transformaram-se em proprietários de enormes extensões de terra, com 200, 300 mil hectares cada uma. Dados cadastrais do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) registram que as pessoas jurídicas, ou seja empresas, particularmente de origem estrangeira, são proprietárias de mais de 30 milhões de hectares de terra no Brasil.
Assim, além da oligarquia rural agroexportadora de origem colonial, aparece no cenário, agora, uma burguesia agrária, grande proprietária de terra, que mescla seus interesses entre a agricultura, o comércio, as finanças e a indústria. Nessa perspectiva de classe, a burguesia industrial no Brasil não tem nenhum interesse na realização da reforma agrária para desenvolver o mercado interno, pois teria que desapropriar suas próprias terras.
Por outro lado, o modelo de desenvolvimento industrial brasileiro está fundado num processo de concentração de renda que permite às indústrias maximizar suas taxas de lucro com a conjugação de dois fatores: pagamento de salários miseráveis e produção de bens de consumo para uma classe média. Ou seja de mercado reduzido, e não de massas, como acontece nos países desenvolvidos.
Ora, se as elites não precisam dividir a terra para acumular lucros, aumentar mercado, elas jamais tomarão a iniciativa de fazer a reforma agrária. Um processo de reforma agrária, de distribuição da propriedade da terra, terá de vir necessariamente da pressão dos trabalhadores e dos camponeses pobres, que dependem da terra para trabalhar e progredir.

O latifúndio é incompatível com democracia e justiça social

É impossível construirmos uma sociedade mais democrática no Brasil sem destruir o latifúndio. É impossível resolver os problemas da pobreza no meio rural, da desigualdade social no Brasil, sem derrotar o latifúndio. É impossível resolver o problema do desemprego no Brasil sem utilizarmos a agricultura como atividade absorvedora de mão-de-obra. Particularmente nas condições do País, em que a maior parte dos trabalhadores desempregados possuem baixo nível de escolaridade e estão cada vez mais distante de recrutamento pelos setores da indústria e de serviços.
A derrota e destruição do latifúndio não dependem apenas dos trabalhadores rurais sem terra. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) está convencido de que apenas a ocupação dos latifúndios não é suficiente para derrotá-los. O latifúndio faz parte da estrutura econômica de nosso País, da estrutura política, dos interesses das classes dominantes em geral, que, apesar de atuarem em diversas atividades econômicas, em sua grande maioria possuem grandes propriedades rurais.
A derrota do latifúndio só vai ocorrer, em nosso País, quando houver uma grande mobilização social e nacional para implementar um outro modelo econômico. Um modelo que reorganize a economia brasileira, voltada para a produção de bens e serviços que atendam às necessidades da população e não apenas guiados pelo lucro, ou por interesses de acumulação do capital. Um modelo econômico que se caracterize pela justa distribuição das riquezas produzidas e da renda gerada, para que cada brasileiro tenha as mesmas oportunidades de trabalho, de educação, de moradia. Num modelo econômico que tenha esse caráter popular, certamente a agricultura terá uma nova função na sociedade, garantindo a produção de alimentos para toda população, servindo de base para geração de empregos para milhões de trabalhadores.
Portanto, para derrotar o latifúndio, é preciso derrotar o atual modelo econômico, como um todo, que é excludente e subordinado aos interesses do capital internacional e financeiro. E essa não é uma tarefa apenas dos sem-terra, dos pobres do campo, dos trabalhadores rurais. Mas é uma tarefa do povo brasileiro, de todos os que se identificam com os ideais de um país socialmente justo, democrático e solidário.

A CRISE NO SENADO

A CRISE NO SENADO É A CRISE DO SISTEMA BURGUÊS
Só o Poder Popular fará avançar a democracia!

(Nota Política do PCB)



Os lamentáveis fatos que vêm ocorrendo no Senado Nacional, envolvendo seu presidente, José Sarney - as frequentes quebras de decoro parlamentar ou os inúmeros abusos de poder que se manifestam nas nomeações (sem concurso) de parentes de deputados e senadores para funções públicas, nos chamados atos secretos, ou nas denúncias de corrupção que a toda hora aparecem na mídia - geram um grande desgaste para as instituições políticas e contribuem para o aumento da descrença de grande parte da população nos partidos, nas ações políticas e mesmo na chamada democracia representativa.

Nas formações sociais capitalistas, a disputa pelo poder político, seja no executivo, no legislativo e mesmo no judiciário, por vias indiretas, se manifesta, principalmente, nas ações e interesses da classe dominante, com o apoio direto dos meios de comunicação privados, que traduzem a realidade conforme a ótica burguesa.

Os grandes grupos econômicos injetam volumosos recursos financeiros nos partidos da ordem. Destes, alguns se apresentam com linha política e base ideológica mais definida, voltada para a ordenação da sociedade pelos preceitos liberais e visando favorecer a acumulação capitalista. Outros se propõem a representar interesses privados mais localizados. As leis eleitorais reforçam o sistema, protegendo e viabilizando os grandes partidos burgueses e dificultando ao máximo a organização e a ação dos partidos e organizações formados por representantes e segmentos das classes trabalhadoras.

Se a Câmara dos Deputados representa de forma um pouco menos distorcida o conjunto da sociedade (com o voto proporcional dos eleitores), o Senado, com três representantes por estado, independentemente do seu tamanho, reforça os segmentos mais conservadores.

A contrapartida oferecida pelas representações parlamentares burguesas é o atendimento dos interesses privados, que se fazem representar diretamente ou por meio de pressões organizadas (lobbies). Os meios para o exercício do poder, por estes grupos, cobrem desde os procedimentos legais e formais da apresentação e aprovação de leis de seu interesse até o uso de esquemas diversos de corrupção (que, por sua vez, vão da compra de votos à apropriação privada de recursos e patrimônio públicos).

No Brasil, a prática da usurpação do patrimônio público por interesses privados vem desde a Colônia e se mantém até o presente na ação dos grandes latifundiários, dos chamados "coronéis" que compram votos com grande facilidade. Esta prática se estende aos "capitães da indústria" e aos grandes banqueiros. Os longos períodos de ditaduras contribuíram também para o enorme distanciamento entre a estrutura política representativa e a maioria da população, além de enfraquecer - muitas vezes com prisões e assassinatos - as representações políticas dos trabalhadores.

A saída imediata de José Sarney da presidência do Senado será, sem dúvida, um passo importante para a moralização daquela casa legislativa. Mas é preciso ir adiante. Sem qualquer ilusão de que seja possível chegar-se a uma democracia plena no capitalismo, é urgente avançar na legislação eleitoral para que a maioria da população - os trabalhadores - esteja melhor representada no sistema político.

Defendemos a mais ampla liberdade de organização partidária, o financiamento público das campanhas eleitorais, o voto em listas, a abertura dos espaços legislativos para o controle e a participação direta das diferentes entidades representativas da sociedade. O fim do Senado, com o fortalecimento de um Congresso unicameral e a construção do Poder Popular - eleito diretamente pela população em cada região - são medidas essenciais para o aprimoramento da democracia dos trabalhadores.

O PCB entende que estes avanços só poderão ser conquistados com muita luta, com a maior organização dos trabalhadores, no bojo da luta maior - a luta de classes - no caminho da construção revolucionária do Socialismo.

PCB - Partido Comunista Brasileiro
Agosto de 2009

“Extremamente profissional”

“Extremamente profissional”

Aug 23rd, 2009
by Marco Aurélio Weissheimer.


Em junho de 2003, no mesmo dia em que a ministra Ellen Gracie, do Supremo Tribunal Federal (STF), anulava a desapropriação das fazendas Estância do Céu, Santa Adelaide, Caieira, Posto Bragança e Salso Fazenda (13,2 mil hectares), de propriedade de Alfredo Southall, em São Gabriel, fazendeiros e prefeitos da região reuniram-se para um “ato de desagravo” ao fazendeiro. Durante o ato, a decisão da ministra foi lida, sob muitos aplausos, pela promotora Lisiane Villagrande (foto), do Ministério Público de São Gabriel.

A promotora Villagrande precisa explicar melhor suas relações com os fazendeiros da região de São Gabriel. As declarações que fez sobre o caráter “extremamente profissional” da ação da Brigada Militar que resultou no assassinato de Elton Brum da Silva, surpreenderam mesmo integrantes do MP Estadual. A promotora admitiu que foi mantida a uma “distância razoável” dos acontecimentos. Mesmo assim, não hesitou em destacar a “tranqüilidade” e o “profissionalismo” da Brigada.

Lisiane Villagrande é casada com Clarindo Veríssimo da Fonseca que, em parceria com seu pai e irmão, é proprietário de uma área de aproximadamente 450 hectares em São Gabriel, a 60 quilômetros da fazenda Southall.

Foto: Ministério Público Estadual

COTAS

DEBATE ABERTO

Cotas, a intolerância relativizada?

Ao entrar com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a suspensão da matrícula dos alunos negros aprovados pelo sistema de cotas da Universidade de Brasília, o DEM (ex-PFL) protagonizou um momento emblemático da nossa propalada “democracia racial”.

Gilson Caroni Filho

Há algo mais profundo, fortemente recalcado, em todas as discussões envolvendo políticas afirmativas em universidades públicas. Tanto o projeto de Lei Complementar, em tramitação no Senado, estabelecendo que as instituições de educação superior reservem 50% das vagas para autodeclarados negros, pardos e índios que cursaram o ensino médio em escolas públicas e venham de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário mínimo per capita, quanto a lei estadual que instituiu o sistema no Rio de Janeiro sofrem forte resistência de atores políticos e de personalidades do mundo acadêmico. Afinal, a quem ameaça a implantação de tais medidas?

Conhecida por seu ativismo contra as cotas, a antropóloga Yvonne Maggie declarou recentemente que “uma coisa é dizer que o Brasil é um país desigual, com uma distância muito grande entre ricos e pobres. Outra coisa é atribuir isso à raça”. Para ela, “a lógica étnica ou racial não tem fim e só persiste porque a Fundação Ford investiu milhões de dólares no Brasil”.

Como explicar o posicionamento da autora do livro Guerra de orixá? Adesão a um padrão de análise que, baseada nas formulações teóricas de Gilberto Freyre, vê a história brasileira como um suceder de arranjos e combinações calcadas na “cordialidade” de uma elite flexível? Reverência a uma arquitetura tão perfeita que o conflito só aparece como “algo externo á nossa gente”?

Esse tipo de discurso está tão cristalizado no pensamento social brasileiro que mesmo setores mais progressistas fazem coro a ele. Quantas vezes não ouvimos que as injustiças sociais em relação aos negros não seriam particularidades destes, mas do conjunto das classes trabalhadoras? Uma visão reducionista que ignora evidências estatísticas. Pelos números do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano (Pnud), em 2002, enquanto os brancos no Brasil tinham um padrão de vida – considerando-se o nível de educação, expectativa de vida e renda – comparável aos habitantes dos Emirados Árabes (46º lugar entre os 173 países pesquisados), os negros viviam como habitantes da República da Moldávia (105º posição). Esses números não mostram uma correlação cristalina entre etnia e inserção social?

Não lembrar, ou fingir que não lembra, que em determinada fase de nossa história houve uma coincidência entre a divisão racial e social do trabalho é legitimar uma estrutura societária rigidamente estratificada que, apesar dos avanços nos últimos anos, ainda persiste em atribuir aos brancos as atividades consideradas mais qualificadas, as que gozam de maior prestígio.

De acordo com o relatório anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2007-2008, da UFRJ, entre 1995 e 2006, o peso relativo da população autodeclarada parda ou preta subiu de 45 para 49,5%. Isso significa, segundo a pesquisa, que os negros podem vir a ser maioria da população do povo brasileiro nos próximos anos. Se por um lado os dados sinalizam para a derrocada crescente da ideologia do branqueamento, por outro o aumento da auto-estima entre a população não-branca se dá por uma série de fatores. E o principal, na opinião do antropólogo e professor da UnB, José Jorge de Carvalho, é “o aumento do debate sobre a questão racial no Brasil”.

Se Yvonne Maggie está correta quando diz que “raça é uma invenção dos racistas para dominar mais e melhor”, talvez, se debruçando sobre as particularidades do fenômeno racista, entenda a competência dos que manejam o discurso excludente. Aqueles que, sabendo que os negros são a maioria dos analfabetos, dos que recebem menores salários, dos encarcerados, dos subempregados e se constituem minorias nas faculdades, em grandes empresas e no Congresso Nacional, entre outros lugares de projeção, rejeitam o sistema de cotas alegando que “raça não pode ser critério de distribuição de justiça”.

Um olhar atento mostraria que “raça” sempre foi critério classificatório de quem pôde ter identidade e consciência histórica: uma elite branca que idealizou a tolerância que jamais teve. Qualquer estudante universitário sabe disso. Se for negro e cotista, então, conhece bem os limites das “relativizações possíveis”. Aquele pequeno espaço de dramatizações sociais para onde convergem os “orixás” da UFRJ e os senhores da direita escravocrata. Ali são forjados os estatutos “progressistas” da Casa-Grande.

(*) Artigo publicado originalmente no Jornal do Brasil


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

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